sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

MINHA HISTÓRIA; UM MILAGRE.

A FIDELIDADE DO SENHOR
PARTE IV

Comecei namorar aquela menina de fato em agosto de mil novecentos e oitenta e três, foi um namoro conturbado, não por ela, mas por minha causa, eu era uma pessoa muito difícil que não sabia o que era amor e neste período de namoro terminei com ela varias vezes, cinco na verdade, todas as vezes dizendo que não daria certo, que eu não gostava dela, que seria melhor se ficássemos amigos e por ai vai, mas não sei porque eu sempre voltava atrás. Hoje eu sei, Deus estava no controle.
A mãe da minha namorada conhecia o dono de um supermercado da localidade, recorri então a minha futura sogra para conseguir um emprego neste mercado, aquele Sr. foi muito atencioso e prontamente me encaminhou para falar com a responsável pelo RH, em pouco tempo estava empregado, trabalhando nos supermercados Alto da Posse - hoje não mais existe.              
Era então o ano de mil novecentos e oitenta e quatro. Depois de idas e vindas decidimos ficar noivos, em agosto de mil novecentos e oitenta e cinco. O dia do nosso noivado foi engraçado porque nossos colegas estavam querendo ver minha coragem, e o meu pedido de noivado ao pai da minha namorada, eles então ficaram do lado de fora da casa encostados na porta tentando ouvir, em determinado momento a porta cedeu e todos caíram para o lado de dentro da sala onde estávamos, mas foi tarde de mais, eu já havia feito o meu pedido.
Os meus parentes - não todos - muitas vezes pararam minha sogra na rua para dizer que não deixasse sua filha casar comigo pois eu não era uma boa pessoa, que eu era irresponsável, que eu iria agredi-la, que iria fazê-la sofrer e que iria deixá-la passar necessidades, mas graças a Deus nunca precisamos de fato de nada, que Deus não nos tenha suprido. Um dos meus orgulhos é nunca ter precisado pedir nada a eles, e digo isto não por soberba vã, mas para Glorificar o nome do meu Deus.
Lembro de uma vez em que uma outra prima minha me chamou pra conversar e pediu para que eu não fizesse aquela menina sofrer, pois ela já vinha de uma família bem sofrida. A partir do nosso noivado tudo começou a ficar diferente e eu assumi de verdade o nosso compromisso.

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Era nosso costume no trabalho fazermos uma brincadeira com aqueles que iriam se casar, nós dávamos  literalmente um banho de sujeira no noivo, mesmo após ele ter tomado banho e trocado de roupa para ir para casa, eu mesmo participei de algumas, só que agora era a minha vez, e os meus colegas capricharam, eles acumularam ao longo de uma semana ou mais, coisas do tipo iogurte vencido, água suja da cozinha,  água com sangue de carne do açougue, até urina, e farinha de trigo, prepararam tudo e saíram antes de eu perceber, eles  foram para o centro de Nova Iguaçu, na época trabalhávamos no bairro de Cabuçú, ao sair do trabalho naquele dia eu não poderia imaginar o que estaria para acontecer; ao descer do ônibus em Nova Iguaçu avistei uns colegas do trabalho em um bar tomando cerveja, logo fui convidado e prontamente aceitei o convite, em dado momento alguém me chamou a atenção para algo na rua, inocentemente me virei para ver o que “acontecia”; imediatamente recebi em cima de mim, tudo aquilo que estava acumulado, foi um banho e tanto de tudo que é sujeira, o pior é que eu iria de ônibus pra casa, espertamente para não pagar o mico sozinho abracei um deles sujando-o e obrigando-o a ficar comigo.
Nesta época eu já estava morando sozinho na casa que havia alugado para morar com minha futura esposa.
                Sete de dezembro de mil novecentos e oitenta e cinco, o dia do dia mais feliz da minha vida, o dia do meu casamento, este dia foi marcante, acordei cedo peguei o carro de um amigo que me emprestou - um fuscão vermelho incrementado - lindo, todo bem acabado.
Neste dia, o carro, a camisa, a gravata, os sapatos eram todos emprestados.
                Fomos para o cartório que ficava na localidade de Mesquita - hoje cidade - para enfim nos casarmos, estávamos acompanhados da minha sogra, do meu cunhado e de sua cunhada, eles foram nossos padrinhos de casamento, eram nove horas da manhã quando nos casamos, as nossas alianças foram trocadas dentro do Fusca, eu dirigindo e a minha agora esposa no banco de traz. Que coisa!!
Chegamos em casa e começamos a preparar a festa que estava marcada para a noite, lembro de ter comprado duas caixas de cerveja, o meu sogro nos deu duas caixas de refrigerante, também ganhamos dois litros de batida de coco e eu mesmo fiz outras, a tia da minha esposa fez o bolo da festa, assim foi a festa do nosso casamento, por volta das onze horas eu a minha esposafugimos” e fomos para nossa casa. Estavam na festa quase todos os nossos parentes e amigos, foi um festão pra nossa realidade da época.
A partir de agora eu era um homem de família, casado, e muito bem casado. E logo eu que pensava que nunca iria casar. Deus é muito bom!
                Porém no começo foi bem difícil me adaptar a esta nova realidade tanto é, que o nosso primeiro natal foi um fiasco, eu sai do trabalho e junto com outros dois colegas fomos desejar feliz natal a uma família conhecida de um deles, era pra ser algo rápido mas ao chegarmos lá, a mesa estava posta e nós começamos a tomar vinho e só saímos perto da meia noite eu estava totalmente embriagado o nosso primeiro natal de casados, foi comigo bêbado e derrubado por um "quase coma” alcoólico. Pela  manhã toda a roupa que sujei na noite anterior estava no tanque pra que eu lavasse, imagino que tenha sido muito grande a decepção de minha esposa.
                Depois do susto inicial veio então desejo de me tornar pai, pois eu tinha muito medo de ser estéril, por ter contraído caxumba quando criança, em janeiro de mil novecentos e oitenta e seis, para a nossa felicidade, a minha esposa engravidou. O engraçado desta época, foi que o exame de farmácia que ela fez deu negativo, o que me deixou muito triste chegando às lagrimas, só um tempo mais tarde confirmou-se a gravidez.       
Quando ela estava no sexto mês de gravidez decidi sair do supermercado e assim fiz, decidi ficar um período em casa pra "descansar", logo o dinheiro acabou, então fui trabalhar depois de muito relutar, - ainda havia um pouco de irresponsabilidade - na mesma oficina que trabalhara quando cheguei ao Rio, agora como lanterneiro.
Nesta época o meu senhorio soube do meu desemprego e me indicou para um emprego de motorista de caminhão em uma pequena empresa de sucatas e pneus que estava iniciando suas atividades, era o meu sonho de ser motorista de caminhão me alcançando.          Fui pedir auxilio a um primo que era caminhoneiro, que me deu um único treino em seu caminhão, me tranquilizando a fazer o teste. Nesta empresa trabalhei por mais ou menos dez anos.

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                A minha primogênita nasceu em sete de outubro de mil novecentos e oitenta e seis. Linda! Gorduchinha! uma princesa, o bebê mais lindo da maternidade.
Após o casamento meu cunhado nos deu uma casa que ele havia iniciado a construir no quintal de seus pais, eu então comecei a terminar a casa, primeiro um lado, para depois fazer o outro. Neste meio tempo a minha senhoria deixou de nos cobrar o mês do aluguel para que pudéssemos investir na casa, quando ficou quase pronta nos mudamos, mesmo sem emboço e com apenas o piso grosso, e sem banheiro usávamos o da casa da sogra, ali começamos a planejar uma segunda gravidez para que nossa primogênita não ficasse sozinha.
            
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                Em trinta e um de julho de mil novecentos e oitenta e oito nasceu a nossa segunda filha, tão linda quanto a primeira, branquinha carequinha, uma graça de criança, ao ficar contra a luz se via uma  aréola formada pelo pêlos loiros em volta da sua cabeçinha careca. Ela sempre foi muito engraçada e tinha boas tiradas, mas também foi a que mais nos deu trabalho devido a bronquite, volta e meia  estávamos no médico com ela para tratamento, mas Deus no Seu tempo a curou definitivamente. Louvado seja Deus. 
                Depois de um período meu cunhado passou por um momento difícil, era o ano de mil novecentos e oitenta e oito, ele perguntou se poderíamos ceder o outro lado da casa para que ele pudesse morar por um tempo, é claro que cedemos. Assim ficamos com uma parte da casa e ele com outra. Para chegada da segunda filha demos uma melhorada na casa, fizemos o emboço colocamos piso, criamos o banheiro, a nossa casa ficou uma beleza, era pequena, mas era a nossa casa.
                Em dezenove de setembro deste mesmo ano, num dia de domingo, eu estava lavando o carro da empresa que ficava comigo, todo feliz ouvindo musica alta no rádio do carro, quando chegou uma prima, a mesma que me pediu para fazer a minha esposa feliz, ela foi logo dizendo pra baixar o rádio, pois não trazia boas noticias, lembro que meu coração deu uma balançada imaginando que minha mãe havia falecido, o que ela logo descartou, mas ainda assim a noticia foi horrível, o meu irmão caçula, de apenas dezesseis anos, havia falecido.
Ao sair para passear com um grupo de amigos e a namorada para um sitio da região afogou-se num lago de irrigação deste sitio, meu mundo caiu! meu Deus! O meu irmão que quando saí de lá o deixara com apenas oito anos, agora aos dezesseis morreu, ainda mais assim de modo tão trágico, lembro que perguntava a Deus o porque? Chorei muito, fumei quase um maço de cigarro, mas nada me consolava, então decidi ir até Campina Grande consolar minha mãe e meus irmãos assim como meu padrasto, a minha esposa logo concordou, mas decidiu que iria junto, assim ficou combinado. fui trabalhar no dia seguinte e depois de explicar ao meu patrão todo acontecido, lhe pedi  uma quantia emprestada para fazer a viagem o que ele prontamente atendeu me dando um mês de férias, e me emprestando a quantia de mil cruzados novos, que paguei depois, e parcelado em muitas vezes.
Assim partimos, Eu, minha esposa e nossas filhas, com um ano e onze meses, e um mês e vinte dias, respectivamente, foi um a viagem louca, a minha esposa antes mesmo de atravessar a ponte Rio - Niterói já queria desistir, a minha filha mais velha enjoou e vomitou a viagem inteira, enfim chegamos depois de três dias ao nosso destino, e o que encontramos foi uma família destroçada, um pai, uma mãe, e dois irmãos super abalados, chegamos a tempo de assistir a missa de sétimo dia, onde foi lida uma carta dos amigos da escola que estavam com o meu irmão, durante muito tempo eu guardei esta carta comigo, depois vi que não era boa coisa, então me desfiz dela. Por causa deste fato a minha segunda filha recebeu o privilegio de prestar homenagem ao meu irmão, recebendo a versão feminina do nome dele.
Aproveitamos os momentos ali para rever alguns parentes, principalmente minha tia, aquela que me "criou" até os quatro anos de idade. Passado o tempo previsto precisávamos então voltar, lembro do meu padrasto me propondo ficar e isto me balançou, e só por causa da minha esposa e por minhas filhas eu não fiquei, lembro de ter chorado muito querendo ficar, chorei por pelo menos duas ou mais horas seguidas, até que enfim entendi que minha vida havia tomado outra direção.
A viagem de volta foi tão difícil quanto a de ida, em uma parada a minha esposa desceu para dar banho na primeira filha, deixando a segunda comigo no ônibus, então decidi comprar um yogurte que era a única coisa que a filha mais velha aceitava comer, acabei deixando a menina dentro do ônibus, e não percebi que o mesmo saíra para lavagem do banheiro, quando a minha esposa voltou ficou desesperada e brava comigo, por ter deixado a menina sozinha no ônibus, e eu como se nada tivesse acontecido, achando tudo normal. Até hoje escuto brincadeiras sobre isto.
Enfim chegamos de volta ao Rio de Janeiro, nos primeiros meses de minha volta as relações foram insuportáveis, pois eu ainda continuava com o coração lá em Campina Grande.